Logo Portal Rush Brasil

A melhor pergunta técnica sobre baixo feita para Geddy Lee

Starman

Em conversa de bastidores Geddy Lee comenta que o fã brasileiro Paulo Negrão fez a melhor pergunta técnica sobre baixo em sua carreira.

Pelo fã: Paulo Negrão – @pcnegrao
Façamos aqui a contextualização da história escrita pelo fã do Portal Rush Brasil e colecionador de baixos – Paulo Negrão. Paulo foi ao evento do livro “Big Beautiful Book of Bass” escrito por Geddy Lee em em Oakville (cidade próxima a Toronto) – no ano de 2019. Logo abaixo inserimos o exato momento da pergunta de Paulo. Se você estiver com pouco tempo assista abaixo, mas recomendamos a leitura completa do artigo com fotos maravilhosas dos baixos do baixista do Rush.
Um adendo importante: “Skully” citado num momento desse episódio é o nome do técnico de baixo de Geddy Lee.
__________

Sou um modesto colecionador de baixos. Para desespero da minha esposa, tenho algumas dezenas de instrumentos na coleção, incluindo o meu “Geddy Lee Puro Sangue” Fender Jazz Bass 1973. Então, não preciso explicar muito que o Geddy é um dos meus “bass heroes”.

Fiquei maluco quando o “Big Beautiful Book of Bass” foi anunciado em dezembro de 2018 e imediatamente fiz o pedido na Amazon, o qual sofreu inúmeros adiamentos até ser, inexplicavelmente, cancelado… que desespero.

Palco Baixo - evento Geddy Lee Big Beautiful Book of Bass
Palco do evento do Big Beautiful Book of Bass de Geddy Lee em Toronto em 2019

Viajo anualmente para o Canadá para uma reunião de pesquisadores na Universidade de Guelph. Todos os anos, meu itinerário é sair do Aeroporto Internacional Pearson de Toronto – bem mais conhecido como YYZ – e seguir diretamente para a Cosmo Music, uma loja gigantesca de instrumentos nos subúrbios de Toronto.

Em 2019, já estava com as passagens compradas e chegaria em Toronto no domingo. Umas duas semanas antes da viagem, recebo um e-mail da Cosmo Music dizendo que o Geddy estaria na loja no sábado, 1 de junho de 2019, para autografar os livros. Fiquei maluco, pois iria perder de ver o “homem” por um dia! Liguei na companhia aérea para tentar antecipar meu voo. Uma fortuna que poderia dar em divórcio! A frustração e a incredulidade se abateram sobre mim. Mas não desisti.

Baixo Geddy Lee
Rickenbacker Doubleneck 4080/12 1978 em Fireglo

Entrei no site do Geddy e vi que na segunda-feira, 3 de junho, ele seria entrevistado no auditório de Oakville, também no subúrbio de Toronto. Entrei no site. 500 ingressos esgotados. Preço: 75 dólares canadenses. Fiquei mais frustrado ainda! Mas não desisti. Liguei no auditório na esperança remota de haver uma lista de espera. O rapaz que me atendeu disse que estava tudo esgotado há semanas, mas que tinha visto, há poucos minutos, um ingresso a venda no Craig’s List de Toronto. Entrei o Craig List. Frequência cardíaca nas alturas. Achei o anúncio. Mandei um email para a pessoa, que me respondeu rapidamente. “Sim, o ingresso ainda está disponível. Vou ter que fazer uma viagem de trabalho e não vou poder ir”. Nem acreditei! Comprei o ingresso na hora.

Dei uma desculpa esfarrapada na universidade e não fui jantar com os meus colegas. Carro na estrada e uma hora mais tarde lá estava eu no Oakville Center for Performing Arts. Cheguei as 6 da tarde e as portas seriam abertas às 7. Frequência cardíaca acima de 120. Finalmente eu iria ver “o homem” de perto! Entramos no auditório e já dei de cara com uns 20 baixos da coleção do Geddy expostos no palco. Chorei de emoção. A poltrona B15 ficava na segunda fileira, bem no meio do teatro, de cara para o gol.

As luzes se apagaram e o “talk show host”, Alan Cross, que iria entrevistar o Geddy entrou no palco. Falou que era locutor de uma rádio de rock local e fã do Rush, como todo bom canadense. Daí o Alan disse que todos que estavam na plateia iriam ganhar o “Big Beautiful Book of Bass” e que o Geddy autografaria todos os livros no final do evento. Absolutamente inacreditável!!!! Com o perdão do palavrão, naquele momento já estava vivendo o dia mais “puta que pariu” da minha vida.

Baixos Geddy Lee
Baixos Geddy Lee

O Geddy entra no palco. Eu estava a uns 6 metros de distância. Filmei tudo! O Alan Cross o entrevistou e disse que no sábado anterior estava na Cosmo Music quando viu uma van passando por ele: Dave Grow do Foo Fighters na direção e Geddy Lee no banco do passageiro. Disse que não sabir que o Grow era motorista do Geddy! Risadas na plateia.

O talk show com o Geddy durou 45 eternos minutos. Que figura humilde e de um senso de humor ácido e sarcástico. Ele explicou sua compulsão por colecionar bolas de baseball em todas as variações possíveis e imagináveis. Daí migrou para colecionar vinhos, sob influência do Alex Liferson, e por influência do seu fiel escudeiro e bass-tech “Skully”, começou a colecionar os instrumentos de 4 cordas que tocou por décadas e pouco sabia sobre eles.
Como todo colecionador compulsivo, a coleção do Geddy tinha quase 400 baixos na época do lançamento do livro. A doidice chega a tal ponto do Geddy admitir que tinha que ter “todos os Fender Jazz Bass vermelhos da década de 60”. Ele é o primeiro a admitir o comportamento compulsivo e ri dele mesmo.

Baixo Gibson Thunderbird II 1964 em Kerry Green

Nos minutos finais da entrevista intimista para os 500 felizardos no auditório (e eu era um deles), o Alan Cross falou que abriria o microfone para algumas perguntas do público. Eu quase enfartei! Levantei os dois braços e comecei a chacoalhá-los no ar, como se estivesse ouvindo YYZ no Maracanã.

O microfone rodava pelo auditório e nada da simpática moçinha canadense vir para perto de mim. Quando meu desespero atingia o nível máximo, o Alan falou que agora seria a última pergunta e que tinha um rapaz ali bem na frente que estava com o braço levantado desde o começo. Esse rapaz era eu!
Meus Deus! O que eu vou perguntar para o Geddy Lee??? Ele já respondeu todas as perguntas possíveis e imagináveis. Tremi na base.
O microfone chegou na minha mão. Fique calmo, como em poucos momentos da vida.

“Oi Geddy, meu nome é Paulo e sou do Brasil”.
O Geddy disse: “Uau, bem vindo”.
“Uma honra esta aqui”, respondi. “Sou um pequeno colecionador de 26 baixos e gostaria de fazer uma pergunta sobre a sua técnica.”
“OK”, disse o Geddy. Imagino que ele deva ter pensado: “lá vem aquela pergunta maldita que eu já respondi um milhão de vezes e sempre tem um chato a mais pra perguntar de novo”.
Mandei a pergunta: “Qual a sua técnica para explicar para a esposa que você precisa de mais um baixo?
O auditório caiu na gargalhada! O Geddy fez uma cara de surpresa e deu uma gargalhada, inclinando o corpo para traz.
A resposta que ele deu é uma lição de vida para qualquer colecionador de instrumentos, principalmente os casados. Sigo, desde então, fielmente os ensinamentos do mestre.
“Bem, a técnica que eu desenvolvi, é…. …não conte para ela!” Risadas da plateia. “Ela pode te dar aquele olhar estranho quando vê a porta dos fundos se abrindo, e o Skully puxando mais e mais baixos pra dentro de casa. Então, não explique nada. Não reclame, não explique. Essa é a técnica.”

A entrevista acabou. Aplausos de pé de todos na plateia. Uma hora com o Geddy num pequeno teatro já havia valido a vida de todos ali presentes.
Uma voz no PA nos pediu para ficarmos todos sentados e que seriamos levados, fileira por fileira, para o Geddy autografar os livros. Nessa hora eu já havia “zerado a vida”. Começaram pelas filas lá de cima e eu estava lá embaixo.

Baixos Geddy Lee
Baixos de Geddy Lee

Colocaram o DVD Beyond the Lighted Stage para nos entreter. Foram quase 2 horas até que minha fileira fosse chamada. Já era mais de 11 da noite e o Geddy autografando os livros e tirando fotos com as pessoas.

Pense comigo: Nessa altura da vida, depois de mais de 40 anos de banda, lotando estádios e ginásios pelo mundo todo, você ver seu ídolo de perto, na maior humildade, cumprimentando a autografando os livros um por um, definitivamente comprovam a humanidade e a humildade deste gênio chamado Gary Lee Weinrib. Concordam?

Sou o penúltimo da fila. O Geddy está cada vez mais próximo. Chaga a minha vez. Ele olha pra mim e diz: “Você que perguntou sobre a minha técnica, não foi?”. “Sim, fui eu mesmo”, respondi com as pernas tremulas. “Foi a melhor pergunta que já me perguntaram desde que eu lancei o livro!”, disse o Geddy.

Autografou meu livro e tiramos fotos.
Zerei a vida. Chegando de volta no hotel, eu olhava para o livro autografado no meu nome, olhava as fotos, me beliscava em total incredulidade. E obviamente, pensava no palavrão que escrevi lá em cima.
Até hoje me belisco e penso no palavrão cada vez que revejo as fotos desse dia tão memorável.

A vida é realmente repleta de surpresas e nos presenteia com memórias que levaremos no coração para sempre.

Obrigado Geddy.

Paulo Negrão
@ppcnegrao
Fã do Rush, Fã do Geddy e Colecionador de baixos.
Campinas, SP

últimas notícias

Compartilhe esse post:

Veja também