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A Playlist para Meu Amigo Conhecer Rush

Hold

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A playlist se encontra no final do artigo.

Olá, meu amigo. Muito bom nosso bate-papo ontem,

você deve ter percebido, que papo vai, papo vem e mais uma vez, como de praxe, em algum momento o assunto Rush aparece. Lembro que você comentou que certamente já ouviu falar de Rush, mas nunca pára para escutar de fato. Eu já percebi que quem é fã do power trio canadense como eu sou, tem muita vontade de falar muito sobre a banda para quem ainda não conhece, ainda mais para você que aprecia um bom rock’ n roll.

Cara, verdade seja dita, tem culpa minha nessa história, e culpa grande. Eu sempre tive vontade de organizar um compilado de músicas do Rush, um setlist que acredito que possa ser uma porta de entrada (digamos assim). Talvez alguém já tenha tido essa ideia, mas por que diabos nunca parei para fazer isso? Bem, chegou a hora! Aproveitando que você vai pegar a estrada amanhã de volta para casa, resolvi fazer o que já deveria ter feito há muito tempo, um setlist com as músicas do Rush. Prefiro selecionar na ordem cronológica, porque digamos assim, existem “eras”, momentos ou fases da banda e vou pegar algumas músicas dos primeiros 8 álbuns. Como você gosta de uma boa história, vou fazer alguns comentários sobre as letras das músicas, mas não se apegue muito, deixa a música fluir, bicho. Se você gostar será legal, caso não aprecie, sinta-se à vontade para declinar (tomara que não), ouve aí!

Working Man

Os três músicos eram muito novos, tinham 20 anos, moravam em Toronto e eram muito influenciados por The Who, Cream, e Led Zeppelin. Eu já li num livro sobre o Rush que Rolling Stones também fazia parte dessa influência, mas se for para dar algum destaque, certamente Led. A música mais consagrada é a última que se chama “Working Man“. Fiquei pensando em ti, porque a música é um lamento em forma desabafo de um cara que sabe que poderia aproveitar melhor a vida, mas está entranhado pelas engrenagens do sistema. Quem Nunca?! 

Foto do documentário “Beyond the Lighted Stage“com os integrantes do Rush e o empresário (abaixo) Ray Danniels.

É uma música legal, e tocada durante toda a carreira dos 47 anos da banda, um bom cartão de visita para conhecer esse lado mais cru de rock n roll do Rush. Sim, falei 47 anos de banda, é isso mesmo. Os caras começaram em 68, gravaram esse primeiro álbum em 74 e vão fazer o último show em 2015. É muito chão de estrada! Bem, vamos para a próxima música.

Anthem

O baterista anterior saiu, “por alguns motivos”, digamos assim. Existem teorias, e teorias sobre esse fato, e uma das mais faladas é a gravidade da diabetes que ele tinha. Eu já li outras coisas, e vez ou outra pessoas me perguntam a respeito. Deixa para depois, o importante aqui é a chegada do novo baterista, com um nome diferente: Neil Peart. (pronuncia-se assim “Piirrt”, dobrando as letras “i”).

O jovem baterista e letrista Neil Peart – Foto: Fin Costello Direitos autorais: 2011 Redferns

Esse cara era um devorador de livros, gostava de estudar na biblioteca da cidade quando criança, muito introspectivo, e absurdamente talentoso na bateria. Ele chega na banda e já assume boa parte das letras. Você conhece algum baterista que escreve as letras das músicas da banda? Eu não me recordo, se você lembrar, me avise.

Bem, vou te mostrar duas músicas. Como você gosta bastante de filosofia, vai valer a pena contar sobre a primeira do álbum, chamada “Anthem“. Essa música é baseada no título de um romance de uma dramaturga russa que foi morar nos Estados Unidos, e nunca mais voltou para seu país de origem. Ela se chama Ayn Rand, e é considerada objetivista. Serei bem franco, têm alguns assuntos que podem soar pesados a esse respeito, entre eles a ideia do”egoísmo” como diretriz de virtude. Isso dá margem para muitas interpretações, e já li muita, muita, besteira na internet sobre o Rush por causa dessa música. Hoje também, né?! … porra, tem uma leva de gente embebido dum anacronismo misturando valores atuais com valores antigos. Tenho preguiça de anacronismo.

 Prefiro dizer que é sim uma canção individualista e que dá uma porrada no sentido de ter responsabilidade de cada um consigo mesmo. Aqui vai um trecho onde se evidencia isso: “Viva para si mesmo, não há mais ninguém por quem se valha viver”.

Talvez você perceba já alguma diferença entre a música anterior com essa, e lá vai uma pequena curiosidade: o riff dessa música já tinha sido feito anteriormente, mas o baterista antigo não conseguia acompanhar o baixista e o guitarrista.

Seguindo, você deve ter percebido que a voz do vocalista, baixista e tecladista Geddy Lee é estridente e isso é um ponto importante. Há quem goste, há quem não. No meu caso, foi o que mais me chamou a atenção quando ouvi Rush pela primeira vez, ah e o baixo também. Ouve bem essa música que você vai perceber que o baixo fica em primeiro plano… as notas são muito nítidas. O baixo não é um instrumento de fundo, e isso para mim é uma das genialidades que esses caras criaram que vou te mostrar na próxima música, senta que lá vem história.

Beneath Between and Behind

A música é baseada no processo de independência dos Estados Unidos, e usa um princípio de “destino manifesto”, em que os colonos americanos tinham em mente que foram enviados por Deus para criarem uma nação. É uma mistura que eles tinham de ideias iluministas com uma pegada religiosa.

Progresso Americano - John Gast
Obra “American Progress”de 1872 de – John Gast
Fonte: picturinghistory.gc.cuny.edu/

Se você se interessar (sei que vai) existe um quadro chamado “Progresso Americano” do artista chamado John Gast que exemplifica bem essa ideia. Isso que é bem legal no Rush, você naturalmente abre espaço para conhecer mais sobre história e filosofia.

Lembro também que a letra cita frases de um discurso famoso do Abraham Lincoln. Sei que seu inglês é bom, mas quando pegar a letra, acho que vai precisar de um dicionário, veja por exemplo: “Earth’s melting pot and ever growing” e “Tame the trackless waste”. Como te falei, cara, o Neil era cabeção, escrevia de forma complexa, se se interessar, te envio a letra depois.

Bastille Day

Sigamos para música que também fala de um momento histórico, mas agora na Europa, precisamente no meio da revolução francesa, com a tomada da bastilha. A música se chama “Bastille Day”. Já falei do baterista, já falei do baixista-vocalista, hora de falar do guitarrista: Alex Lifeson. Ele toca demais, e eu adoro a entrada dessa guitarra, acho esse riff envolvente que te conduz a marchar em busca de sangue, justiça e revolução, sente a letra: 

A guilhotina vai reivindicar seu prêmio sangrento.
Abram as masmorras com os inocentes
O rei se ajoelhará, e permitirá que seu reino se imponha

Cara, essa música ao vivo é pirante, se quiser ir a um show de alguma banda do Rush cover comigo, vou perguntar antes para a banda se eles vão tocar Bastille Day. 

Familia Portal Rush Brasil com footer
Lojinha do Portal, Acesse Aqui

2112

Bem, seguimos agora para uma das músicas mais importantes da banda: 2112, e que leva o emblema mais conhecido do Rush, o Starman.

Essa música ocorre num universo futurista, em uma sociedade hierárquica controlada por sacerdotes opressores.  É um conto de um homem que se encanta ao encontrar um violão, e resolve tocá-lo. No entanto, os sacerdotes se incomodam com o ato e o proíbem de tocar.

Não nos atrapalhe mais
Temos nosso trabalho a fazer
Pense nos resultados
Que utilidade eles têm para você? 

Portal Rush Brasil 2112
Desenho equipe de ilustradores do Portal Rush Brasil

Daí vem a ideia do emblema do Starman, o homem nu que deseja expressar sua arte enfrentando os sacerdotes, que é representado pela “Estrela Vermelha da Federação Solar”. 

É uma música de mais de 20 minutos dividida em 7 partes, mas não quero te assustar, agora vale a pena conhecer as duas primeiras partes.

Closer to the Heart

Aqui vou sugerir uma das músicas mais amadas pelo público brasileiro. “Closer to the Heart”. É uma música curta, suave e uma ode às artes e às emoções humanas. O Rush não é uma banda de hits, cara, definitivamente não, mas eu me arriscaria em dizer que essa poderia ser. Vou falar pouco dessa música, ouve e me fala.

Filósofos e lavradores
Cada um tem de saber sua parte
Para semear uma nova mentalidade
Mais próximo ao coração

La Villa Strangiato

Hora de pegar pesado, essa é certamente uma das grandes obras do Rush, e eu recomendo que qualquer pessoa de bom gosto musical conheça “La Villa Strangiatto”. Existe um vídeo de um maestro ouvindo essa música pela primeira vez, e ele fica boquiaberto, embasbacado, atônito e perplexo.

Maestro Doug Helvering Escuta La Villa Strangiato pela primeira vez

É toda instrumental, e é uma viagem profunda aos pesadelos do guitarrista Alex Lifeson. Sabe essas listas de músicas que criam por aí? Sei que não devemos levar muito a sério, mas já vi uma lista considerando essa a melhor música do rock progressivo da história. Ouve essa música no talo, mas por favor, tome cuidado na estrada.

Freewill

Tem um assunto que eu e você já conversamos um bocado: responsabilidades e livre-arbítrio. É o que trata dessa música. Vale a pena ouvir a letra inteira, e aqui separo o que percebo ser o mais genial:

Se você opta por não decidir
Ainda assim você fez uma escolha

Aprecio muito o solo final!

Tom Sawyer

Indiscutivelmente o maior clássico do Rush, tocado na abertura do MacGyver. Sabia que era só aqui no Brasil que tocava essa música? Lá fora a música original é bem chocha, coitados. Ainda bem que meteram um Rush e ficou umas 10 mil vezes melhor.  “Tom Sawyer” é baseado no livro “As Aventuras de Tom Sawyer” do escritor norte-americano Mark Twain. Eu tenho um livro de contos e ele escreve muito bem. 

Essa canção fala da coragem e ousadia do protagonista, é uma música divertida de escutar.

YYZ

O que as siglas dos aeroportos tem a ver com o Rush? Ep. 334 do canal Aviões e Músicas

Já que você está voltando pra casa, YYZ veio à tona. Ouça os primeiros 30 segundos de YYZ e você perceberá uma batida repetida: são as letras Y-Y-Z tocadas pela banda em código morse. Mas por que? Aqui vai uma história bem legal.
Todo aeroporto no Mundo tem um código de três letras, e o principal aeroporto de Toronto leva exatamente as letras YYZ. “Diz a lenda” que numa aula de instrução de voo do guitarrista, ele ouviu o som YYZ se repetindo, e após alguns comentários com a banda, perceberam que uma batida protocolar controle aéreo poderia se transformar numa música. Como a banda estava nessa época em constante turnê, a batida YYZ é uma forma de expressar a volta para casa. Adoro essa história.

Red Barchetta

Por fim, encerramos com a melhor música do Rush para se pegar uma estrada: Red Barchetta. Essa é a história de um jovem que pega o carro escondido do tio. Mas não qualquer carro, uma Ferrari 166 MM produzida no final da década de 40. “Barchetta” pode ser traduzido para “barquinho”, que é o modelo aerodinâmico italiano de dois lugares sem capota. Por isso que dá pra sentir o frenesi do vento batendo no rosto, enquanto se faz a perfeita descrição do possante na estrada.

Vento 
No meu cabelo
Trocando as marchas e derrapando 
Música mecânica
Surto de adrenalina
Couro bem desgastado,
Metal quente e óleo,
O ar perfumado do interior
Luz do sol no cromado,
O borrão da paisagem,
Cada nervo alerta

Red Barchetta - Portal Rush Brasil
Ferrari 166 MM Red Barchetta –
Foto: Peter Bovyn – Flickr: Perico001

Bem, cara, espero que essas informações possam lhe ser úteis. Talvez escutar e depois ler as histórias possa também funcionar. Na verdade não sei ao certo. O que sei é que você gosta de uma boa história, ou melhor, de boas histórias, e isso o Rush tem de sobra. Boa viagem de volta! Abraços com YYZ! 

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